Ciclismo nos Jogos de Inverno: ruptura histórica ou adaptação inevitável?

Ciclismo nos Jogos de Inverno: ruptura histórica ou adaptação inevitável?

12 de February de 2026 0 By gobici

Enquanto os Jogos Olímpicos de Inverno seguem ancorados na identidade histórica da neve e do gelo, uma discussão estratégica avança nos bastidores: há espaço para o ciclismo no programa olímpico de inverno?

O debate sobre a presença do ciclismo nos Jogos Olímpicos de Inverno voltou ao centro das discussões internacionais. Em um cenário de mudanças climáticas, revisão estrutural do evento e pressão por modernização, a pergunta deixou de ser apenas simbólica. Ela se tornou estratégica. A resposta não é simples — e envolve política esportiva, mudanças climáticas e disputa por relevância global.

Durante os Jogos de Inverno de Milão-Cortina, o Comitê Olímpico Internacional confirmou que está revisando o tamanho e o escopo do programa olímpico. Karl Stoss, chefe do Grupo de Trabalho do Programa Olímpico, declarou que o COI avalia novas adições e até a possibilidade de intercâmbio entre esportes de verão e inverno.

A revisão acontece dentro do programa “Fit for the Future”, lançado sob a presidência de Kirsty Coventry. A motivação vai além da inovação esportiva: envolve custos crescentes, sustentabilidade e a dificuldade cada vez maior de garantir sedes com condições naturais adequadas.

O principal obstáculo continua sendo jurídico. A Carta Olímpica define esportes de inverno como aqueles “praticados sobre neve ou gelo”. É essa cláusula que hoje mantém o ciclismo fora do programa.

Ciclocross é a ofensiva política da UCI

A União Ciclística Internacional intensificou sua movimentação para incluir o ciclocross já em 2030 (Alpes Franceses) ou 2034 (Salt Lake City). O presidente da UCI, David Lappartient, defende que a modalidade ampliaria a universalidade dos Jogos e atrairia grandes nomes do ciclismo mundial.

O argumento central é estratégico: o ciclocross é disputado no inverno, possui forte apelo europeu e poderia dialogar com o cenário de mudanças climáticas, ampliando o leque de modalidades viáveis.

No entanto, o impasse é técnico. Diferentemente do esqui ou do snowboard, o ciclocross não exige neve como condição obrigatória. Pode ser disputado em lama, grama ou terreno seco — o que o coloca fora da definição atual da Carta Olímpica.

Além disso, há resistência institucional. A Associação das Federações Internacionais de Esportes Olímpicos de Inverno teme que a entrada de modalidades tradicionalmente “de verão” dilua a identidade dos Jogos. Soma-se a isso o desequilíbrio estrutural: enquanto os Jogos de Verão ultrapassam 300 provas, os de Inverno pouco superam a centena.

A mudança climática como parte do jogo

O fator climático tornou-se peça central da discussão. A redução de áreas com neve natural e os altos custos de infraestrutura artificial pressionam o modelo tradicional dos Jogos de Inverno.

Nesse contexto, ampliar o conceito de “esporte de inverno” pode deixar de ser uma concessão política e se tornar uma necessidade operacional. Modalidades disputadas durante o inverno, mesmo que não dependam exclusivamente de gelo ou neve, passam a ser vistas como alternativas estratégicas.

O ciclismo que já compete na neve

Enquanto o ciclocross enfrenta barreiras conceituais, o Snow Bike já opera plenamente dentro do ambiente de neve.

A terceira edição do UCI Snow Bike World Championships, realizada em Châtel (França), demonstrou maturidade competitiva e expansão internacional. No feminino, a suíça Lisa Baumann confirmou hegemonia ao conquistar ouro no Super-G (1:58.27, atingindo 63,05 km/h) e no Dual Slalom, garantindo seu terceiro título consecutivo na disciplina.

No masculino, domínio francês. Pierre Thévenard retomou o título do Super-G com 1:42.33 e velocidade máxima de 80,40 km/h, enquanto Vincent Tupin venceu o Dual Slalom e ficou com a camisa arco-íris.

O evento reuniu 40 atletas de 14 países no masculino, além de disputas femininas consolidadas. Mais importante: o formato das provas (Super-G e slalom) dialoga diretamente com disciplinas alpinas já presentes nos Jogos, o que facilitaria integração logística e conceitual.

Diferentemente do ciclocross, o Snow Bike atende ao critério técnico de prática sobre neve.

Identidade olímpica ou evolução estratégica?

O debate sobre ciclismo nos Jogos de Inverno não é apenas esportivo. É institucional, climático e comercial. O ciclocross possui peso político, tradição e potencial midiático. O Snow Bike, por sua vez, já se encaixa tecnicamente no conceito de esporte de inverno, mas ainda não alcançou o mesmo alcance global.

A decisão final dependerá do que o COI priorizará: preservar a identidade histórica baseada exclusivamente em neve e gelo ou adaptar os Jogos a uma nova realidade climática e de mercado. Se houver abertura, o ciclismo poderá ocupar um espaço inédito no programa de inverno. Se não, a pressão institucional da UCI indica que o tema continuará na agenda olímpica pelos próximos ciclos.